A dor de não ter o apoio da família
Algumas famílias ou até mesmo famílias funcionais e amorosas em determinados momentos podem ser fonte de sofrimento para seus membros. Isso ocorre por divergências de opiniões, expectativas irreais, controle e manipulação de comportamentos. As dinâmicas de poder e hierarquia envolvidas em famílias conservadoras e tradicionais pode representar um perigo para a saúde mental de muitos jovens, que se enxergam perdidos e sem amparo em relação a própria família. Tal situação pode colocar em risco o bem-estar físico e emocional desses filhos desamparados e deixados de lado por simplesmente serem pressionados a não se abrirem com suas famílias, que não estão preparadas para lidar com queixas e demandas críticas, complexas e diferentes.
A sensação de não se sentir escutado, validado, respeitado, reconhecido e visto em sua totalidade, como pessoa dotada de liberdade e autonomia para tomar suas próprias decisões sem que isso gere uma “dívida de gratidão” aos seus responsáveis, é um alerta para os cuidados com a saúde mental. O amor que a família sente não comporta o que seus filhos precisam, é necessário estar com o coração e os ouvidos abertos, ser sensível e vulnerável ao olhar para o sofrimento de quem se ama, ponderar e alterar comportamentos e maneiras de funcionar, com o intuito de acolher e melhorar as relações, que precisam de esforços mútuos. O medo, a culpa, a solidão, o isolamento, a tristeza, a raiva e o cansaço gerados por relações rasas, desiguais e adoecedoras são carregados por esses filhos que decidem fazer diferente, pois não aceitam mais esse tipo de dinâmica.
O amor das famílias deveria ser pautado nos vínculos das relações, no respeito e na boa convivência, mas não apropriado de condições que tenham como objetivo encaixar as pessoas em padrões e expectativas alimentadas por disfuncionalidades. Essa dor é um buraco no peito que muitas vezes não consegue ser preenchido novamente e a pessoa carrega esse ressentimento e essa injustiça ao longo de toda a vida, aprendendo a lidar com ela. No entanto, momentos marcantes, como formaturas, noivados, casamentos e conquistas, ou até mesmo dias difíceis existem para relembrar que não existe lar, família ou colo capaz de acolher o indivíduo como inteiro.
A falta de apoio das famílias obriga os indivíduos a caminharem sozinhos, enfrentarem o mundo com coragem, mas com a consciência de que ninguém o salvará ou ajudará, de que ninguém vai ouvir seu choro ou seu pedido de socorro. É triste avaliar que se afastar as vezes é a única opção e o único limite alcançado, além de ser cobrado dos motivos, sabendo que não vão concordar e sim invalidar novamente tudo que está posto.